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3 pontos para entender por que o Brasil evoluiu (mas não muito) em educação

3 pontos para entender por que o Brasil evoluiu (mas não muito) no Pisa (Foto: Pixabay)

 

A cada três anos o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa, na sigla em inglês) disponibiliza um relatório que avalia a aprendizagem dos alunos ao redor do mundo em leitura, matemática e ciências. Os resultados são obtidos a partir de provas que os alunos participam, tal como questionários que são respondidos por eles, professores e pais/responsáveis.

A pesquisa mostrou evolução no Brasil desde que as avaliações começaram, em 2000, mas os níveis educacionais das nossas crianças continua abaixo da média internacional. Segundo o relatório, 43% dos alunos obtiveram pontuação abaixo do nível mínimo de proficiência nas três áreas do ensino. Nos 36 países que fazem parte da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), todos ricos, esse índice é de apenas 13%.

Mas, por que isso acontece? Os dados disponibilizados pelo Pisa revelam o problema da educação no Brasil está ligado principamente a três aspectos: as desigualdades sociais, a desvalorização do professor e a atmosfera negativa no ambiente escolar. 

1. Desigualdades sociais
Que as diferenças socioeconômicas interferem na educação não é novidade para ninguém. Problemas de infraestrutura, falta de professores e distância entre casa e escola são apenas alguns dos problemas enfrentados pelos alunos que fazem parte da parcela mais pobre da população.

Segundo o Pisa, alunos privilegiados superaram os alunos desfavorecidos na leitura em 97 pontos em 2018 — o que não é muito, comparado à diferença de 89 pontos dos países da OCDE. Mas quando o assunto é matemática e ciências, essas divergências são mais graves: os mais pobres obtiveram resultados em média 16% piores.

Infelizmente, o baixo desempenho escolar também diminui as ambições dos jovens estatisticamente. No Brasil, apenas um em cada 25 alunos privilegiados espera não concluir o ensino superior. Dentre os mais pobres, esse índice é mais alto: um em cada 10.

Em contraponto, cerca de 10% dos estudantes desfavorecidos obtiveram altíssimo desempenho em leitura, “indicando que as desvantagens não são um destino”, escreveram os membros do Pisa no relatório. Ainda assim, os especialistas fazem questão de ressaltar que combater as desigualdades sociais não é o suficiente. Para melhorar a educação no país, precisamos valorizar a questão em nossas políticas públicas.

 

“A história mostra que os países com a determinação de construir um sistema educacional de primeira classe podem conseguir isso mesmo em circunstâncias econômicas adversas, e suas escolas hoje serão sua economia e sociedade amanhã. Então, isso pode ser feito”, afirmaram os porta-vozes do Pisa, em comunicado.

Ainda de acordo com eles, a menos que as escolas desfavorecidas recebam recursos suficientes para compensar seus prejuízos, “a segregação social e acadêmica entre as escolas pode ampliar as lacunas nos resultados relacionados ao status socioeconômico”.

Um exemplo positivo de política pública para diminuir as desigualdades na educação está no Ceará. Destacado no documento do Pisa, o estado tem um projeto que consiste em bonificar as escolas de maior desempenho com uma verba para contratar mais professores.

Esses profissionais, por sua vez, não atuam nas instituições pelas quais foram contratados, mas são enviados àquelas com notas mais baixas. “Todo mundo ganha: as escolas de alto desempenho ganham prestígio adicional e expandem a equipe, e as escolas de baixo desempenho se beneficiam da experiência de instituições de alto desempenho”, elogiou a OCDE.

2. A questão do professor
Ao contrário do que muitos podem imaginar, o país está abaixo da média quando o assunto é a falta de professores. Enquanto nas escolas menos privilegiadas 17% dos alunos informam ser prejudicados pela falta de professores, a média desse índice nos países da OCDE é de 34%. Em escolas mais ricas, a taxa é de apenas 8%, sendo que a média das outras nações é de 18%.

O maior problema por aqui parece ser outro: o desrespeito ao corpo docente. Segundo a análise do Pisa, 41% dos estudantes afirma que os professores perdem muito tempo na sala de aula tentando fazer a turma focar. A informação faz ainda mais sentido se considerarmos que, onde os profissionais têm mais dificuldades para trabalhar, os alunos obtiveram uma média de 19 pontos a menos nas provas de leitura.

Para reverter essa situação, o Pisa defende que o uso da tecnologia é essencial se quisermos conquistar os jovens em um mundo onde a internet está cada vez mais presente. Além disso, os especialistas acreditam que educar os estudantes sobre essas novas ferramentas é essencial para a construção de um mundo melhor.

“Todos os estudantes precisam ser capazes de ler textos complexos, distinguir entre fontes de informação críveis e não confiáveis ou entre fato e ficção, e questionar ou procurar melhorar a conhecimento e práticas aceitos de nossos tempos”, escreveu a OCDE.

Também é essencial ter em mente que valorizar o professor não significa só aumentar os seus salários. Nossos tutores precisam ter apoio do resto da comunidade escolar e, é claro, das famílias dos alunos. “Eles precisam ser apoiados em suas vidas profissionais e desafios pessoais, e [devem saber que] seus esforços adicionais serão valorizados e reconhecidos publicamente.”

3. Alunos desestimulados
Outra questão que interfere na educação dos brasileiros é a atmosfera escolar. O Pisa 2018 mostrou que ao menos 29% dos alunos haviam sofrido bullying no período de um mês antes da prova, o que impactou diretamente em seu desempenho escolar — eles tiraram 21 pontos a menos que os outros.

Além disso, esses alunos afirmam se sentir mais tristes, assustados e menos satisfeitos com suas vidas, o que diminui a vontade de frequentar a escola. Segundo o Pisa, os estudantes que reportam sofrer bullying também informam faltar mais.

Aliás, as faltas, no geral, são um problema na educação brasileira. Em média, nos países da OCDE, 21% dos estudantes não foram à escola e 48% chegaram atrasados nas duas semanas anteriores ao teste do Pisa. No Brasil, esses índices foram de 50% e 44%, respectivamente.

Outro problema enfrentado pelos alunos é a solidão, já que quase um quarto deles se sentem sozinhos durante as aulas. Isso é um problema porque, para os especialistas, cooperação e companheirismo são essenciais para a qualidade do ensino.

A situação pode ser ainda mais agravada pela competitividade entre os colegas, observada por 57% dos jovens. “A cooperação entre os alunos, independentemente das boas relações com os professores, também está associada a um melhor desempenho e ao bem-estar dos estudantes”, escreveu a OCDE no documento. Em todos os sistemas escolares participantes, os alunos eram mais propensos a sentir que pertenciam à escola quando seus colegas eram mais ativamente cooperativos."

Resultados positivos
Apesar de todos esses problemas, o Pisa 2018 também trouxe boas notícias. Ao menos 63% dos jovens brasileiros discorda que “a inteligência é algo que não pode ser alterado”, o que é essencial para melhorar os índices de aprendizagem.

"É necessário incentivar todos os alunos, especialmente os mais desfavorecidos, a terem uma educação ambiciosa e realista, além de expectativas de carreira, não apenas para melhorar a equidade, mas também como um investimento no futuro", afirmam os especialistas.

Outro ponto que vale ser destacado no relatório é que, na percepção dos estudantes, os professores brasileiros têm mais prazer em ensinar — 83% concordam que tutores parecem felizes ensinando, contra uma média de 74% nos países da OCDE. Isto é muito positivo, pois os dados mostram que as notas são maiores quando o professor está mais entusiasmado e mostra interesse pelo assunto que leciona.

Para melhorar
Os especialistas do Pisa acreditam que para melhorar a educação não apenas no Brasil, mas no resto do mundo, é preciso desenvolver uma nova forma de lidar com os jovens e interessá-los — e isso só pode ser feito com o comprometimento de alunos, professores e familiares. “Se pais e professores estabelecessem relacionamentos baseados na confiança, as escolas poderiam contar com os pais como parceiros valiosos na educação de seus alunos”, defendem as autoridades.

Além disso, é preciso esclarecer aos estudantes qual a relação entre a educação e sua utilização no futuro, o que pode ser feito por meio da integração de diferentes disciplinas e a integração dos alunos nos contextos de aprendizagem. Como a OCDE explica no documento, os jovens são “menos propensos a investir seu tempo e energia em uma melhor educação se essa educação parece irrelevante para o demandas do mundo ‘real’".

Não é de hoje que pesquisadores em educação acreditam na criação conjunta e na contextualização como ferramentas essenciais para mudarmos o mundo. Como o criador do método da “sala de aula invertida”, Jonathan Bergmann, disse em entrevista à GALILEU em 2017, que “o maior problema da educação é a tradição”.

Por isso, no futuro, é necessário personalizar as experiências educacionais e criar instituições que desenvolvam paixões e capacidades nos alunos desta maneira. “Precisamos ajudar os alunos com aprendizado e avaliações individuais, de maneira a promover seu envolvimento e seus talentos”, defende o relatório do Pisa.

 

Os especialistas fazem questão de ressaltar que essa metodologia não tem a ver com “criar algo impossível”, mas com usar as ferramentas que temos hoje para transformar o “possível” em “atingível”. Para eles, esta é a única forma de transformar o mundo em um lugar melhor para todos nós.

“No passado, era suficiente para a educação separar os estudantes, porque nossas economias e sociedades podiam contar com alguns indivíduos altamente instruídos”, lembram os representantes do Pisa. “No mundo de hoje, todos precisam ter conhecimentos e habilidades avançados, não apenas por razões econômicas, mas também para a participarem da sociedade.”

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