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Um grande debate sobre a humanidade

O biólogo americano Jared Diamond e o historiador israelense Yuval Harari no evento Cidadão Global (Foto: Leo Orestes)

 

Juntos, eles já venderam mais de 50 milhões de livros em todo o planeta. Mas jamais haviam se reunido no mesmo evento. Até que o banco Santander, em parceria com o jornal Valor Econômico, alcançou esse feito inédito: o historiador israelense Yuval Noah Harari e o biólogo americano Jared Diamond foram as principais estrelas da segunda edição do evento Cidadão Global, o mesmo que, em 2017, havia trazido o ex­presidente americano Barack Obama.

“Este evento nos desafia a pensar, a questionar certezas. É uma atitude fundamental, porque o que existia há dez anos não necessariamente funciona mais. Mais do que nunca, as pessoas precisam encontrar suas redes, suas conexões, para definitivamente criar valor”, afirmou, na sequência, Sérgio Rial, desde 2016 presidente do Santander Brasil. “Vivemos um processo de transformação brutal; vários agentes que estavam calados agora são ouvidos. Nunca houve tanta democracia. O resto está nas nossas mãos”, completou.

Mudança global

O primeiro a se apresentar, Harari comentou que seu colega foi uma grande inspiração: “Jared, minha maior inspiração foi você. Eu li seu livro e pensei: ‘nossa, as pessoas podem escrever obras assim!’”. A conexão entre os dois ficaria mais clara no encadeamento de informações e análises.

Harari abordou o nacionalismo, suas origens e os mitos que o cercam. Explicou que a conexão entre cidadãos de um mesmo país, por si só, é bastante positiva. “Vamos derrubar alguns mitos sobre nacionalismo”, anunciou, para encadear o seguinte raciocínio: há 2 milhões de anos, os humanos viviam em agrupamentos muito pequenos. Posteriormente, passaram a se reunir em tribos, em que todos ainda se conheciam.

Já as nações são muito mais recentes. Surgiram há 5 mil anos como agrupamentos organizados, em que as pessoas não necessariamente se conhecem, mas aceitam um mesmo governo, vivem sob as mesmas regras e se diferenciam, em termos conceituais.

"Muitos líderes que se dizem nacionalistas, como o presidente americano, não o são", disse Yuval Harari (Foto: Leo Orestes)

 

 

O autor, conhecido pelos best­sellers “Sapiens: Uma breve história da humanidade”, “Homo Deus: Uma breve história do amanhã” e “21 lições para o século 21”, explicou que o nacionalismo se baseia no respeito e na admiração pelos cocidadãos, e no ódio pelos estrangeiros. “Muitos líderes que se dizem nacionalistas, como o presidente americano [Donald Trump], não o são”, explicou.

“Para ser nacionalista de fato não é necessário construir muros, muito pelo contrário”, prosseguiu o autor, para quem o foco de uma nação está em defender seus interesses, mas respeitando as regras gerais que regem o jogo diplomático. É como uma Copa do Mundo de futebol, ele comparou. “Em muitos outros momentos da história, seria impensável enviar as seleções da França e do Brasil para disputar um torneio esportivo na Rússia”, comentou. “Mas só dá certo porque todos seguem as regras previamente combinadas.” E assim as nações podem agir em conjunto, respeitando suas especificidades, como uma orquestra.

As regras que regem a relação entre nações, diz ele, vão se mostrar fundamentais para garantir que a humanidade supere três desafios que nenhum país, sozinho, seria capaz de encarar: a aniquilação nuclear, o aquecimento global e o desenvolvimento de tecnologias inovadoras. Esse terceiro fenômeno, afirma o historiador, está prestes a gerar, pela primeira vez na história do planeta, uma raça de seres artificiais e inteligentes. “Estamos criando seres muito diferentes de nós, humanos, mais do que nós somos diferentes dos macacos”, alertou. “Todos esses desafios só podem ser administrados e superados pelas nações em parceria.”

Países em crise

Na sequência, Jared Diamond focou no tema de seu mais novo livro, publicado em 2019: “Reviravolta: Como indivíduos e nações bem­sucedidas se recuperam de crises”. O autor de “Colapso: Como as sociedades escolhem o fracasso ou o sucesso” e ganhador do Prêmio Pulitzer pelo livro “Armas, germes e aço” comparou o Japão aos Estados Unidos.

"As forças destrutivas estão crescendo em todo o mundo", alertou Jared Diamond (Foto: Leo Orestes)

 

Quando foi atacado pelos americanos em 1853, o Japão se viu forçado a se abrir para o ocidente. Foi uma crise que o país solucionou mudando algumas estruturas sociais e modernizando suas indústrias. Em 1910, já era uma nação completamente diferente. Foi um caso muito bem­sucedido de nação que soube lidar com um período de grave questionamento sobre si mesma e sobre suas motivações.

Já os Estados Unidos contemporâneos, diz ele, se comportam exatamente como uma pessoa em negação. “Os americanos não admitem que exista uma crise. Diante de qualquer problema, colocam a culpa nos outros, sejam os canadenses ou os chineses. Mas não são nem os canadenses nem os chineses que estão colocando em risco a democracia do país. Essa atitude não é saudável.” Diamond concorda que, à parte as crises específicas de cada nação, o mundo está diante de desafios que colocam a humanidade em risco. “As forças destrutivas estão crescendo em todo o mundo. Mas o reconhecimento dos problemas também está crescendo”, comentou.

Ao final do evento, Jared Diamond e Yuval Harari conversaram com o advogado, professor e pesquisador brasileiro Ronaldo Lemos, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro. Harari comentou por que não usa smartphones: “preciso de tempo sem essa sobrecarga de informações”. Diamond, por sua vez, mostrou seu celular, amarrado com elásticos, e contou que só o utiliza para fazer ligações e ver e­mails. “Minha esposa me fez comprar esse aparelho, mas ele fica desligado quase todo o tempo.”

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