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David Christian: "Se não aprendermos, destruiremos as condições que permitiram a vida”

O norte-americano David Christian é historiador especializado em Grande História (Foto: Reprodução TED)

 

Tive certeza de tenho sorte de estar viva quando, ainda na escola, aprendi sobre reprodução humana. Em apenas uma ejaculação masculina, mais de 200 milhões de espermatozóides partem em direção ao óvulo — então, vencer apenas essa corrida já seria motivo suficiente para comemorar.

Mas foi estudando a história da humanidade e me aprofundando nos mistérios da astronomia que percebi o quanto não apenas eu, mas todos os seres vivos só estão aqui graças a uma feliz combinação de eventos. Desde o Big Bang até o momento em que nossos pais se conheceram, muita coisa aconteceu para que pudéssemos viver (e sobreviver) até este exato momento.

Por isso, quando me fizeram a proposta de entrevistar o historiador norte-americano David Christian foi difícil conter a empolgação. Especialista em história russa, o professor estudou na Universidade de Oxford, na Inglaterra, e na Universidade do Oeste de Ontário, no Canadá.

Mas o que realmente me empolgou a respeito da conversa foi outro fato sobre sua carreira: Christian é um dos poucos acadêmicos que se dedica a estudar e lecionar sobre a Grande História.

Essa área do conhecimento foca em compreender e relacionar os diversos fenômenos que culminaram na existência do Homo sapiens. “A novidade na Grande História é a ideia muito simples de procurar links interessantes entre uma grande gama de disciplinas”, explicou Christian, em entrevista à GALILEU. “E é claro que, se procurarmos, encontraremos essas ligações, mas é surpreendente como poucos especialistas se dedicam a essa área.”

 

Como explicou em uma palestra da TED Talk (que já tem mais de 10 milhões de visualizações), alguns acontecimentos são essenciais para compreendermos nossa origem. Dentre eles estão oito principais: o Big Bang, a formação das estrelas, os elementos químicos complexos, o Sistema Solar, a vida unicelular, a vida multicelular, o desenvolvimento da agricultura e a “revolução moderna”, que levou à formação de sociedades.

Pensando em tudo isso, o historiador escreveu um livro que pretende dar uma visão geral ao leitor justamente sobre todos esses aspectos. Segundo ele, apesar de ter várias informações essenciais, essa narrativa não foi tão difícil de contar. “Levou cerca de dois anos”, relata Christian. “A parte complicada foi encontrar a forma mais envolvente de apresentar esses fatos.”

Capa da edição brasileira de Origens (Foto: Reprodução)

 

O livro foi lançado em 2018 e chegou este ano ao Brasil com o título Origens: Uma grande história de tudo (Companhia das Letras, R$ 64,90).

Sorte pra uma vida toda
A ideia de que sou sortuda por estar aqui ficou ainda mais forte quando assisti à série One Strange Rock (2018), produzida pela National Geographic e narrada por Will Smith. Misturando os depoimentos de astronautas da NASA com registros de diversas sociedades ao redor do mundo, o programa explica a Grande História focando na ciência que envolve alguns fatores cruciais à vida, como a água e a atmosfera da Terra.

Considerando tudo isso, me deparei com um paradoxo: ao mesmo tempo em que um conjunto de eventos muito específicos e raros teve de ocorrer para estarmos vivos, parece impossível que exista vida apenas por aqui. Quando disse isso a David Christian, ele concordou: “Tudo o que li sugere que, sempre que encontrarmos planetas rochosos que não estejam muito distantes de uma estrela, é provável que hajam condições de vida. Isso sugere que deveria haver muita vida no Universo”, observa.

Cazaquistão visto do Espaço em julho de 2017 (Foto: NASA)

 

Ainda assim, ele acredita que a maior parte desses “extraterrestres” seja unicelular, justamente pelas barreiras ao desenvolvimento da vida. “A maioria do universo é hostil à vida. As estrelas podem ser muito quentes para átomos formarem moléculas, enquanto no espaço vazio não existe matéria ou energia suficientes para combinar esses elementos”, apontou Christian. “Ambientes como a Terra são muito raros e, quando você os encontra, muitas vezes eles não duram por muito tempo.”

Faz sentido. Como já foi provado cientificamente, Vênus teve grandes oceanos, mas o calor fez com que a água evaporasse. Já Marte, que também tem muita água, é um planeta frio demais para sustentar vida. “A pergunta é: quantos ambientes existem e permanecem ‘amigos’ da vida no Universo?”, questionou o especialista. “Ainda não sabemos, mas a resposta se aproxima à medida que os astrônomos se aprimoram cada vez mais nos estudos de exoplanetas.”

Chega de dar sorte pro azar
Assim como eu, David Christian acredita que um dos elementos que levou ao desenvolvimento da vida por aqui seja a sorte. “Fomos sortudos e não deveríamos tomar a vida na Terra como certa”, afirmou o historiador.

É exatamente por isso que ele acredita que “dar sorte para o azar” está longe de ser uma boa ideia — o que, de acordo com ele, estamos fazendo. “Agora nós temos tanto poder que estamos começando a mudar o sistema climático do mundo de maneiras imprevisíveis e perigosas. Estamos usando tantos recursos que as condições estão ficando debilitadas para milhões de outras espécies”, alertou Christian.

É verdade. As emissões de carbono continuam estáveis — mesmo após o Acordo de Paris, assinado por dezenas de países em 2015. Por conta disso, diversas mudanças climáticas estão acontecendo, e o aquecimento global já coloca em risco milhões de pessoas: segundo a Cruz Vermelha, as crises humanitárias irão dobrar até 2050.

Enquanto isso, centenas de espécies sofrem com essas mudanças no clima. Em abril, cientistas constataram uma queda de 89% nos nascimentos de corais na Austrália. Já na América do Norte, uma pesquisa recente mostra que dois terços das aves podem ser extintas por conta do aquecimento do planeta.

Gases poluentes emitidos por indústrias podem agravar o efeito estufa, que causa o aquecimento global (Foto: Pixabay)

 

Segundo Christian, essas mudanças atingem mecanismos que surgiram na Terra e são essenciais para a vida, como a água líquida. “Um desses fatores é o ‘efeito estufa’, que precisou se estabilizar de modo a proporcionar vida. Contudo, hoje a coisa está tão terrível que estamos destruindo esses mecanismos”, comenta o historiador. “Se não aprendermos a nos restringir, em breve destruiremos as condições que permitiram o sucesso da vida nos últimos milhares de anos.”

E é exatamente por isso que Christian fez questão de concluir tanto sua palestra no TED Talk, quando sua entrevista com a GALILEU ressaltando a mensagem de que menos é mais. "Temos de aprender que uma boa vida pode ser simples, com base no respeito aos outros humanos e espécies”, afirmou o especialista. “Na realidade, essa é uma ideia muito antiga que dominou os ideais humanos durante a maior parte da história.”

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